Na última quinta-feira aconteceu o debate “A história e a estética do cinema filipino (um diálogo possível com o cinema brasileiro?)”, no Rio, com as presenças do diretor Felipe Bragança (presente em Cannes esse ano, na mostra “Quinzena dos Realizadores”, com o filme “A Alegria”), com o pesquisador e crítico Júlio Bezerra, e com Fernando Chiappussi, um dos programadores do Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires – BAFICI.
O debate foi muito interessante, ajudando a contextualizar e mapear esse cinema filipino, e buscando pontes, diferenças e semelhanças com o cinema brasileiro. Gostaria de destacar alguns pontos da conversa.
Fernando nos contou como o BAFICI chegou nessa cinematografia filipina. O festival de Buenos Aires foi um dos primeiros a “perceber” esse novo cinema, sendo um dos grandes impulsionadores mundiais. Em 2005, o festival exibiu “Masahista”, primeiro longa de Brillante Mendoza. O filme foi muito bem recebido, chamando atenção para este diretor e para o cinema filipino em geral. Frequentando os festivais mundiais que estão alertas na nova cena independente – Fernando citou o Festival de Roterdã e o Festival de Cannes – os programadores do BAFICI cada vez se encantavam mais com este cinema filipino, percebendo um algo a mais naquelas imagens, diferente do que se notava, até então, na filmografia asiática (para a qual o BAFICI sempre esteve dedicado).
Em 2007, então, Fernando capitaneou uma retrospectiva de Raya Martin, que tinha apenas 23 anos naquela altura. Ainda assim, já era digno de ver sua obra em conjunto. Republico aqui, para maior compreensão, o texto de abertura do catálogo do BAFICI, no qual Fernando apresenta a mostra de Raya Martin:
La elección de los directores “en foco” en un festival no responde sólo a la intención de los organizadores. Así como hay nombres pensados de antemano, los admirados (y generalmente poco accesibles), también hay felices casualidades: una película extraña que despierta curiosidad por un realizador desconocido, a veces aún en formación.
Tal es el caso de un extraño largometraje de ¿ficción? llamado A Short Film about the Indio Nacional. Este ovni filipino viene despertando controversias entre críticos y programadores desde su aterrizaje en la edición 2006 del Festival de Rotterdam; concretamente, despierta admiración o hastío según el espectador (o crítico, o programador). En fin, el tipo de reacción auspiciosa para una película del Bafici. Su director, Raya Martin, nació en 1984 en Manila y sólo había dirigido un documental y algunos cortos antes de esta película. Mientras lo invitábamos, se supo que Martin tenía un nuevo largo, Autohystoria, cuya première iba a tener lugar en la nueva edición de Rotterdam. De ahí al foco había un solo paso.
En el circuito de festivales se habla bastante del cine filipino; el de Martin es uno de los nombres más repetidos, junto con los de Lav Diaz y Khavn de la Cruz. Los tres forman parte de una nueva avanzada en las islas, una alternativa a la industria que abraza el cine digital pero no se priva, cuando puede, de filmar en 35 milímetros (en Indio Nacional, Martin hace ambas cosas).
Los directores de la nueva generación se benefician, en términos culturales, de dos situaciones desventajosas: el mal momento de la industria (para la cual algunos trabajan) y una conservación casi nula del pasado cinematográfico. Tienen ímpetu juvenil, los nuevos formatos les permiten independizarse del mandato comercial y están relativamente libres de los corsés culturales que agobian a sus pares del mundo desarrollado. Estos realizadores no parecen pensarse en términos de una “carrera”, aunque no son precisamente iletrados. Martin es hijo de un periodista y escribe sobre cine para algunos medios. Vio en festivales la obra de héroes indies como Maya Deren o Kenneth Anger, pero cuando alguien lo vinculó con Jack Smith, el realizador de Flaming Creatures, tras una proyección de Indio Nacional, aseguró no conocerlo; y parecía genuinamente sorprendido. Esa suerte de ingenuidad, así como su disposición para adoptar recursos poco convencionales, es una de sus mejores armas, en un momento en que el cine occidental parece autoconsciente y encerrado en fórmulas.
Julio Bezerra aprofundou a análise de “Índio Nacional” fazendo um interessantíssimo paralelo. O filme é feito nos moldes do cinema mudo: além de não ter som (exceto o primeiro rolo – filmado em digital), faz uso de planos fixos e sem correção de foco, intertítulos de diálogos, entre outras características. Entretanto, “Índio Nacional” faz parte de um tempo presente, e só poderia ser compreendido hoje – Julio Bezerra fala em curto-circuito. Para esclarecer esse pensamento, comparou a um sonho que teve recentemente: estava com um amigo e ambos idealizavam a invenção do avião. E comentavam que tendo inventado o aparato, Santos Dumont nunca teria a fama que teve. Entretanto, para que esse sonho fosse “possível”, era preciso que Santos Dumont já fosse conhecido pelo seu feito na aviação, ao mesmo tempo em que ainda não poderia ter inventado o avião, já que Julio e seu amigo estavam consumando o fato. Com o filme de Raya Martin se passa algo parecido, pois ao mesmo tempo que se tem a impressão do cinema mudo, ou do “primeiro cinema”, só podemos compreendê-lo, e o filme só pode existir com a força que tem, tendo o cinema construído toda uma história. Essa relação feita sobre “Indio Nacional” pode ser também extendida – de maneira semelhante – para o cinema de Raya Martin como um todo.
Julio apresentou um panorama geral do cinema filipino, estabelecendo as pontes do cinema contemporâneo com o cinema mais antigo – clássico – recorrendo a Lino Brocka, em especial. Traçou a relação entre Brocka e Mendoza, investigando o realismo social presente em ambos. Mas lembrou que se trata de um “real não reproduzido” (e ambos se apóiam em chaves do melodrama).
Já Felipe Bragança nos contou de sua ida às Filipinas neste ano, e quais as impressões do cinema independente que lá existe. Curioso que Felipe reconheceu uma nova geração do cinema independente, posterior a geração de Raya Martin, Khavn e John Torres (mesmo estes sendo muito novos para nossos padrões brasileiros). Segundo Felipe, a “nova geração” que desponta nas Filipinas é formada por jovens (alguns de 17 anos), que apresentam um cinema “elementar”. Geração que já vê nos nomes mais conhecidos um certo cansaço, como se aquelas imagens já estivessem assentadas e fosse necessária a busca por novas. Ao mesmo tempo, Felipe nos falou que há uma certa cena independente nas Filipinas que se auto-sustenta, com pequenos patrocinadores (supermercados, por exemplo), que isentam os realizadores da busca por incentivos públicos; segundo Felipe esses novos pequenos mecenas são oriundos da iniciativa privada.
Essa questão levantou, naturalmente, a discussão a respeito do cinema independente brasileiro. Entre muitas especulações, comentários e análises, gostaria de destacar um fato relatado por Felipe. Ele comentou que a moeda filipina é muito mais fraca do que a brasileira – como exemplo, por 150 reais ele passou 10 dias no país. Isso faz, naturalmente, com que o cinema seja também muito mais barato, e essa diferença de valor monetário é um dado importantíssimo quando se discute os modos de produção de cada país.
Para Felipe, o fato dos filipinos conseguirem, através de fundos internacionais, impulsionar todo um movimento cinematográfico passa menos pela ideia de uma filmagem rápida, do uso do digital ou de uma equipe pequena, mas principalmente por essa enorme diferença, que faz com que um aporte de 30 mil euros signifique necessariamente mais que para os brasileiros.
Para esclarecer, relato uma curiosidade ocorrida no Festival de Roterdã. Khavn de la Cruz recebeu do Hubert Bals Fund uma pequena verba para a elaboração do projeto e desenvolvimento do roteiro. Entretanto, o resultado final apresentado foi o filme pronto. Questionado, Khavn disse que com o dinheiro conseguido já pode fazer o filme todo. Por que não?
Seja mesmo por essa razão econômica, pelos fatores de produção citados acima ou pela coincidência do surgimento de um grupo cheio de valores individuais, o fato é que o novo cinema filipino já é uma realidade, confirmada por todos na mesa.