* (Ou, como comumente se declara): Em Estado de Dependência, Nasce Um Novo Cinema Filipino.

O termo “independente” já significou algo no Cinema Filipino. Era reservado para luminários como Roxlee (o grande animador), Raymond Red (o grande curtametragista), e, em anos mais recentes, Lav Diaz (o grande e teimoso cineasta); artistas que haviam merecido reconhecimento e obtido louvores, mas recusavam- se a se vender ou a servir às demandas comerciais, preferindo o controle sobre sua obra ao dinheiro e à fama. Hoje, independente, indie, ou qualquer um de seus vários sinônimos, tornou-se palavra-chave das mais em voga nas Filipinas. Jovens cineastas, estudantes, festivais e até mesmo estúdios comerciais estão começando a empregá-la, profanando a pureza à qual já esteve uma vez associada. Questões assomam: para que serve a independência quando o conteúdo de sua obra equivale a lixo comercial? Para que serve a independência quando seu filme é feito no intuito de servir como cartão de visitas para cortejar a indústria? O que significa independência quando você depende do financiamento concedido por redes de TV administradas pelos homens mais ricos do país para fazer seu filme (Cinemalaya e Cinema One Originals) [1]? O que significa independência quando você está fazendo, em DV, filmes de exploitation de baixo orçamento para um estúdio em decadência (Viva Films, etc.)?

A resposta:

Não muito.

Quando membros da indústria comercial, do mainstream ou das classes dominantes, começam a se infiltrar e a reclamar o underground para si próprios, o que resta fazer ao cineasta verdadeiramente independente? Brakhage formulou-o bem:

“Então os provedores de dinheiro começaram novamente. Para as catacumbas, pois, ou então plantemos esta semente mais fundo ainda no underground, onde não esteja sujeitada à falsa nutrição de águas de esgoto. Deixe-a alimentar-se de ocultas fontes que ascendem, canalizadas pelos deuses... esqueça a ideologia, pois o Cinema, não-nascido como é, não possui linguagem, e fala como um aborígine – retórica monótona... Abandone a estética... Negue a técnica, pois o cinema, bem como a América, ainda não foi descoberto, e a mecanização, na acepção mais profunda do termo, aprisiona a ambos ao ponto de não podermos nem medir as chances... Deixe o cinema ser. Ele é algo... ele está se tornando.”

É neste espírito que o Novo Cinema Filipino – inseminado em 2004, nascido em 2005 e começando a amadurecer agora em 2006, está sendo forjado. Mesmo que não escape de todo a esta falsa nova independência (um dos melhores filmes de 2005, a adaptação de Dennis Marasigan para Sa North Diversion Road (On The North Diversion Road) de Tony Perez, criticado também nestas páginas, foi realizado com financiamento da Cinema One Originals), muitos de seus melhores e mais brilhantes momentos representaram fortes reações a mesma: Um Pequeno Filme Sobre o Índio Nacional (ou a Prolongada Agonia dos Filipinos), de Raya Martin; os quatro curta-metragens de John Torres, bem como seu primeiro longa, Todo Todo Teros; e os filmes de Lav Diaz, Heremias e Evolução de uma Família Filipina, de onze horas de duração. Todos financiados pelos próprios realizadores, todos radicais tanto na forma quanto no conteúdo.

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Falar em ambição no que tange Índio Nacional, de Raya Martin, equivaleria a constatar o óbvio — um universitário de 21 anos, prestes a se formar, incumbindo- se de rodar um longa-metragem silencioso, com intertítulos, filmado em 35mm, em preto e branco, e ambientado na década de 1890, durante o período espanhol. E acrescentando, em seguida, uma frustrante e lenta introdução de 22 minutos ao início do filme, filmada em DV a cores, sonora e completamente destituída de ação pelos seus primeiros 17 minutos (antes de estabelecer-se como um comovente relato nacionalista). O Índio Nacional de Martin é um filme intensamente pessoal, que projeta as impressões emocionais do jovem diretor acerca de uma era passada sobre a atualidade das primeiras revoltas, os rudimentos do nacionalismo filipino. A fita de Martin é exata em sua representação? Será uma obra que evidencia profunda pesquisa histórica e que poderá ser usada como objeto de estudo para que, no futuro, jovens possam saber mais sobre aqueles tempos? Não — e aqui está tanto sua força quanto sua fraqueza. Índio Nacional enfoca momentos íntimos e menores, criando imagens que seriam comumente excluídas de grandes filmes históricos (e que foram, de fato, excluídas dos filmes realizados à época pelos colonizadores). Quão relevante será o filme para a geografia cultural das Filipinas? Ouso dizer que é uma obra muito, muito importante, que será, no futuro, encarada com tanta admiração quanto hoje é encarada com perplexidade. Mas as razões por trás de sua importância, seu valor, serão a) sua audácia, b) sua estética, e c) o impacto emocional que terá, senão numa geração inteira de expectadores medianos, ao menos nesta geração de cineastas. Índio Nacional descalça luvas protetoras para, com rude autoridade, optar pelo máximo de sofisticação e beleza de que a estética filipina é capaz.

Enquanto preparava este texto, estive escutando uma apresentação de Allen Ginsberg lendo Uivo, registrada numa universidade já em momento avançado de sua vida. Sua leitura da histórica obra era a um só tempo instigante e sonífera; faltava-lhe a força da juventude e por vezes não prestei muita atenção, mas ainda assim me deixou galvanizado, e inspirado pela paixão contida em sua poesia e na própria leitura. Assistir ao Índio Nacional de Martin provoca a mesma sensação: seu controle sobre ritmo, momentum narrativo e a performance dos atores revela alguém que não está em seu melhor momento, alguém que ainda não está em plena posse de seu poder estético. Como ouvir a gravação de Ginsberg, por vezes pode ser sonífero. Mas o poder contido na poesia de suas imagens e da sensação provocada por aqueles momentos que recebemos com atenção plena fala – e fala com tanto amor: pela pátria, pelos compatriotas, pela história, que não podemos deixar de nos sentir comovidos e inspirados. A diferença entre o Ginsberg que lia Uivo e o Martin que realizou Índio Nacional? Ginsberg já havia passado de sua época de total controle e poder, já havia passado de seu apogeu à época da leitura; Martin está apenas começando a alcançá-lo. Ainda veremos muito deste jovem no futuro.

John Torres é um cineasta tão intimista quanto se poderia encontrar. Seus filmes – quatro curtas e um longa-metragem, todos realizados por não mais que o custo de algumas fitas mini-DV e os rendimentos provenientes de outros trabalhos (ele administra uma pequena editora) – são obras devastadoras. Eles combinam imagens de arquivo com texto de maneira inédita no cinema filipino. As imagens, a narração em off e o texto na tela complementam-se uns aos outros, criando, com esta interação, significados que nenhum dos elementos contém isoladamente. Recorro aos filmes de John Torres pelo aprendizado que me proporcionam. Mas não aprendo nada que seria considerado valioso num cenário acadêmico, nada sobre história, política e economia; nem ao menos sobre o cinema filipino contemporâneo. Aprendo algo bem mais valioso para a minha própria vida: aprendo sobre o trabalho interno do coração. Os filmes de John, as ideias por trás deles, a luta para realizá-los, ensinam-me algo que preciso aprender: humildade, benevolência. Eles ilustram a beleza que se encontra na modéstia, em tocar a sua própria dor, em admitir suas falhas, e ao mesmo tempo, em aprender a sacrificar o próprio orgulho em nome da confiança, em nome da solidariedade com a humanidade, e a compartilhar tudo que lhe é íntimo com o mundo, na esperança de que este compreenda e se compadeça tanto quanto você está tentando compreendê-lo e compadecer-se dele. Em última análise, tratam-se de poemas tonais, filmes que advogam e oferecem compaixão.

As obras de Lav Diaz encontram-se tão à margem que Evolução foi exibido apenas 6 vezes nas Filipinas (UP, NCCA, CCP, Cebu, Tarlac, UA&P), e amealhou um público total de 200 a 250 pessoas (cujo valor coletivo, no entanto, excede em muito o de 30 ou 40 cinemas comercias totalmente lotados). Seu Heremias, trabalho de amor e primeira metade da última parte de sua Trilogia das Filipinas — que inclui Evolução e Batang West Side — foi realizado com fundos provenientes de bolsas concedidas por organizações estrangeiras, e foi escrito, dirigido, produzido e editado pelo próprio Diaz. O aspecto mais estarrecedor da Trilogia das Filipinas de Diaz é como cada filme — embora todos sejam radicais em si mesmos — diferencia-se um do outro quanto a tempo, espaço e estética. West Side, filme de 5 horas de duração sobre a experiência filipina no estrangeiro, é uma obra em 35mm filmada a cores e passada na Nova Jérsei dos dias de hoje. Evolução, que tem 11 horas de duração e combina 16mm com diversas formas de digital, é em preto e branco e ambientado antes, durante e depois do período da Lei Marcial nas Filipinas. Mesclando cenas da vida urbana e rural, trata-se de um filme incrivelmente sofisticado tanto na mise-en-scène quanto na montagem (intelectual), um feito memorável dada a duração da obra. Heremias, de 9 horas de duração e inteiramente digital, é ambientado nas Filipinas rurais dos dias de hoje. É o único filme da trilogia cuja trama se desenrola linearmente, enfocando apenas um personagem. Esta trilogia, quando completada, estará muito acima de todo o cinema filipino contemporâneo e de seus cineastas independentes, representando um paradigma de não-comprometimento.

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O novo cineasta filipino não só não teme o experimental como o adota, sabendo que, como declarou Brakhage, os filmes, ou melhor, o cinema ainda é algo que está... se tornando. Ao passo que, lá em cima, proclama-se a morte do cinema filipino (ou da indústria), é no mais fundo underground que se encontram os verdadeiros artistas, reabastecendo o solo com as sementes de um novo cinema.

* (O título deste artigo foi tomado de empréstimo a um documentário de Nick Deocampo sobre a Revolução Popular de 1986. O autor não viu o filme ainda, mas acha o título muito bonito.)

[1] Cinemalaya e Cinema One Originals foram concursos de roteiro organizados no fim de 2004, poucos meses um do outro e pautando-se em regras muito similares, por duas grandes redes televisivas nas Filipinas: Dream Broadcasting Systems, e Cinema One, uma subsidiária da ABS-CBN. Cada qual concedia aos roteiros vencedores (dez, no caso da Cinemalaya; e oito, no Cinema One Originals) capital inicial para realizar um longa-metragem: 500.000 pesos da parte de Cinemalaya, e 600.000 pela Cinema One Originals. Os resultados de ambas as competições foram exibidos em festivais auto-organizados em julho e agosto do ano passado. Ambas as competições estão agora em seu segundo ano.

Artigo publicado originalmente no jornal eletrônico Criticine (www.criticine.com) em 11 de novembro de 2006.

Alexis A. Tioseco foi um crítico de cinema, curador e professor filipino. Ele contribuiu regularmente para a mais antiga revista do país, The Philippines Free Press, e teve artigos publicados em revistas como Cahiers du Cinéma, Sight & Sound e Cinema Scope . Em 2005, fundou o Criticine, um jornal eletrônico dedicado a encorajar o discurso inteligente acerca do cinema do Sudeste Asiático. Alexis e sua namorada, a roteirista e programadora Nika Bohinc, foram assassinados na casa deles em Manila, no dia 01 de setembro de 2009. Um homem gentil e inteligente, Alexis será sempre lembrado pelos amigos e admiradores de todo o mundo por sua defesa apaixonada do cinema independente das Filipinas e do Sudeste Asiático.